Empreendedorismo negro: um mercado estratégico ainda subestimado pelo marketing brasileiro
- Comunicação

- há 3 dias
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"O marketing brasileiro ainda trata o empreendedorismo negro como um segmento de comunicação, um nicho. Está na hora de reconhecê-lo como um ecossistema estratégico de inovação, consumo e desenvolvimento econômico."
Durante muito tempo, falar sobre empreendedorismo negro esteve associado exclusivamente às pautas de inclusão e diversidade. Era um tema tratado sob a perspectiva da reparação histórica ou da responsabilidade social das empresas. Embora essas dimensões continuem sendo fundamentais, elas já não são suficientes para explicar a relevância desse ecossistema.
Hoje, o empreendedorismo negro representa uma força econômica, cultural e inovadora que desafia empresas, instituições e profissionais de marketing a revisarem seus próprios paradigmas.
A pergunta que precisamos fazer já não é "por que apoiar o empreendedorismo negro?". A pergunta que o marketing brasileiro deveria responder é:
Por que ainda tratamos como nicho um mercado que já ocupa posição central na economia brasileira?
Segundo levantamento do Sebrae, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua/IBGE), o Brasil ultrapassou a marca de 16 milhões de empreendedores negros (pretos e pardos), representando um crescimento de 28,3% na última década, ritmo superior ao observado entre empreendedores brancos, cujo crescimento foi de 18,4%. Mais do que isso, o próprio IBGE aponta que 56% da população brasileira é composta por pessoas pretas e pardas. Ou seja, estamos falando da maioria da população brasileira, não de uma minoria de mercado.
Esses dados revelam uma contradição importante: enquanto o empreendedorismo negro cresce, gera empregos, movimenta economias locais e cria novos modelos de negócio, ele ainda recebe pouca atenção nas estratégias de marketing das grandes empresas. Isso significa perder oportunidades de inovação, relacionamento e de lucro.
Existe uma diferença importante entre enxergar um nicho e reconhecer um ecossistema econômico. Um nicho é tratado como um segmento específico de consumidores. Um ecossistema envolve empreendedores, fornecedores, consumidores, produtores de conhecimento, influenciadores, cadeias produtivas e inovação. É exatamente isso que o empreendedorismo negro representa hoje.
Estamos falando de empresas que desenvolvem soluções para problemas reais, criam produtos conectados aos seus territórios, movimentam economias locais e estabelecem novas formas de relacionamento com seus consumidores. No entanto, boa parte das estratégias de marketing continua buscando inovação apenas nos grandes centros tecnológicos ou em tendências internacionais, enquanto ignora soluções que surgem diariamente nas periferias e nos territórios historicamente invisibilizados.
Existe outro dado que merece atenção dos profissionais de marketing.
Segundo pesquisas do Instituto Locomotiva em parceria com a NielsenIQ, a população negra movimenta aproximadamente R$ 2 trilhões por ano em consumo no Brasil. Trata-se de um dos maiores mercados consumidores da América Latina, frequentemente subestimado nas estratégias de comunicação e desenvolvimento de produtos. Ao mesmo tempo, os empreendedores negros continuam enfrentando barreiras estruturais. Dados do Sebrae mostram que, apesar do crescimento expressivo do número de negócios, a renda média dos empreendedores negros ainda é cerca de 35,7% inferior à dos empreendedores brancos.
Esse cenário evidencia que o desafio não está na capacidade de empreender, está no acesso às oportunidades de crescimento. É justamente nesse ponto que marketing, branding, posicionamento e acesso a mercados se tornam fatores decisivos para reduzir desigualdades e ampliar competitividade.
O marketing sempre teve como principal função compreender pessoas, identificar necessidades e criar conexões entre marcas e consumidores. Se o Brasil mudou, o marketing também precisa mudar. Isso significa ampliar pesquisas de mercado, diversificar fornecedores, fortalecer programas de desenvolvimento de empreendedores, investir em inovação aberta e reconhecer que boas ideias não surgem apenas dentro das grandes organizações. Muitas delas nascem em territórios que historicamente aprenderam a inovar pela necessidade.
O empreendedorismo negro oferece exatamente essa capacidade de criar soluções conectadas à realidade social brasileira. Não reconhecer esse potencial significa desperdiçar oportunidades de negócios.
Quando profissionais de marketing compreendem que inclusão também é estratégia de crescimento, deixam de olhar para o empreendedor negro apenas como público-alvo ou beneficiário de projetos sociais e passam a reconhecê-lo como parceiro estratégico, fornecedor, criador de soluções e público consumidor. Talvez o maior desafio do marketing brasileiro não seja aprender a comunicar diversidade.Seja aprender a reconhecer valor onde, por muito tempo, escolheu enxergar apenas vulnerabilidade.
Como Vice-Presidente de Inclusão Social da Fundação Brasileira de Marketing, acredito que temos o compromisso de ampliar essa discussão para além das campanhas institucionais. O empreendedorismo negro não representa apenas uma agenda de inclusão. Representa uma agenda de desenvolvimento econômico e competitividade para o Brasil.
Os dados mostram que esse mercado já deixou de ser emergente. O que ainda precisa mudar é a forma como o marketing o enxerga. Quando o marketing amplia seu olhar, ele não apenas torna as marcas mais representativas. Ele torna os negócios mais inteligentes, mais inovadores e mais preparados para competir em uma sociedade cada vez mais diversa.
Maria Rita
VP de Inclusão Social da FBM





Muito bom